quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O jeito paulistano de atrasar para comer (aqui em São Paulo)

Por Josimar Melo
Fotos Tuca Reinés

Restaurantes e bares têm horários de funcionamento. Parece uma afirmação óbvia? É mesmo óbvia, mas talvez nem tanto. Cada tipo de restaurante tem um regime de funcionamento, o que inclui seus horários; e da mesma forma, cada cliente tem seu ritmo de vida – e por sorte as grandes cidades podem atender às necessidades de cada um, como demonstra o grande número de estabelecimentos abertos durante toda a tarde, bem como aqueles que atravessam a noite em plena atividade. Os horários das refeições mudam bastante de país para país. Para pegar exemplos extremos, estão os Estados Unidos ou o Japão, onde é comum que as pessoas jantem a partir das 17h, com sol radiante; e na outra ponta, a Espanha, onde os almoços são marcados a partir das 13h30 (quando são cedo), e os restaurantes só ficam animados para o jantar a partir das 23h.

Com estas diferenças de hábito, acontece um fenômeno curioso nos restaurantes gastronômicos. Enquanto na França o hábito é reservar cada mesa apenas para um serviço, ficando a mesa disponível a noite toda para o mesmo cliente; nos Estados Unidos um restaurante gastronômico pode rodar a mesas algumas vezes (recebendo às 17h30 o americano típico, às 19h30 o americano mais tardio, e às 21h30 a turma de brasileiros e espanhóis...).
Cada cidade tem seu tipo de funcionamento e muda conforme os hábitos e costumes. Mas às vezes parece que nem todos percebem isso com clareza. Quando estão fora do Brasil, os brasileiros comportam-se exemplarmente na hora de fazer reserva em restaurantes importantes – são capazes de fazer reservas com meses de antecedência, e chegar pontualmente ao compromisso marcado a três mil quilômetros de distância.

No entanto, aqui mesmo em São Paulo, os mesmo comportados clientes dos restaurantes estrangeiros são em geral pouco disciplinados ao visitar nossos próprios restaurantes. Por isso mesmo ocorre um fenômeno estranho: praticamente nenhum restaurante aceita reservas. Ou pelo menos, não aceita reservas a sério – pois só aceita reservas até 20h30, horário em que está vazio, e reservas não seriam necessárias.

A razão disso, segundo proprietários dos restaurantes que tentaram instituir reservas nos horários de pico, é que clientes habituais, ou personagens importantes, fazem reserva mas se acham no direito de atrasar o quanto querem – e ficam enfurecidos quando, ao chegar, constatam que a mesa foi passada para outras pessoas que estavam na espera. Todo mundo sai perdendo com isso. Seria ótimo para todos que a mesma disciplina ostentada nas viagens internacionais fosse aplicada no Brasil: os restaurantes se organizam melhor, e o público não se sujeitaria a longas filas de espera no horário de pico.

Matéria publicada na segunda edição do Flavour Guide - Lugares Especiais, Sabores Únicos (BBD Editora)


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